III Encontro Internacional

de Malabares, Circo e Percussão

do Brasil

 

15 a 18 de Novembro

SESC CAMPESTRE

Porto Alegre – Rio Grande do Sul

 

Entrevista para o jornal VAIA sobre o Encontro de Circo em agosto de 2001

 

VAIA - Fale um pouco do III Encontro Internacional de Malabares, Circo e Percussão do Brasil ...

Luciano Fernandes - Este será o terceiro encontro de malabares e percussão do Brasil (de 15 a 18 de novembro de 2001, em Porto Alegre). Os dois primeiros encontros foram no RJ, em Maricá, num sítio, e a proposta do encontro é a galera vir, os artistas de circo, ficar todo mundo acampado, no SESC Campestre (Av. Protásio Alves,  6220), durante quatro dias numa área em que a gente fique conversando, treinando junto, trocando experiências sobre o que cada um já fez e mostrando o que cada um está pesquisando. No Brasil são tantas culturas, que todo mundo tem influências de milhões de coisas e cada uma faz uma coisa diferente, de região para região. Então, só o encontro já fomenta muita coisa, porque aqui no Sul fazemos um circo completamente diferente da galera do Nordeste.

 

VAIA – E quais as diferenças entre o artista nordestino e o gaúcho?

Luciano Fernandes - Lá no Nordeste eles estão na rua, eles trabalham mais na rua. Existe uma história de festa cultural deles maior do que a nossa, de manifestação de rua mesmo. Então eles têm os bonecos de mamulengo, misturam tudo com a arte do circo, né. Aqui no RS não tem tantos artistas na rua, agora é que estão começando a surgir. A gente não tem esta cultura do botar artista na rua passando chapéu, a não ser no brique da Redenção que é uma coisa tradicional, mas também tem um monte de burocracia pra se apresentar ali.

 

VAIA – E o pessoal que vem pro Encontro é de circo mesmo ou, por exemplo, o cara que é artista de rua, o cara que toca violão, o homem-folha, está incluído nisto?

Luciano Fernandes - Vamos tentar reunir aqui o maior número possível de artistas. Porque o circo está aberto pra todos os artistas, pra música e tudo mais. E, como a gente não tem tradição muito grande em circo, não temos ainda tantos artistas de circo assim no Brasil. Então, isto é uma coisa muito contemporânea e a gente não deve descartar nenhum tipo de artista. Todos estão incluídos nesta nova arte.

 

VAIA – Agora, o que vocês acham do público gaúcho? É mais frio que o nordestino?

Luciano Fernandes - É bem mais frio. Mas acreditamos que podemos mudar isso. Até porque, como não temos uma característica turística, então tudo que vamos  fazer... “ah, não é legal”. A partir do momento que a gente tiver uma característica mais turística, haverá mais espaços pros artistas de rua. Terá sempre alguém pra admirar o que se faz aqui. A galera ainda não valoriza o que é daqui, parece que tem que vir uma coisa de fora. E a gente que está aqui, tem que ir lutando contra isso e continuar mostrando, até que a galera comece a reconhecer, porque outras pessoas de fora vão vir e vão dizer: “bah, aquilo é legal e de lá mesmo”. E agora, aqui em POA, esta começando a acontecer uma fomentação disso. E o encontro de malabares veio pra cá porque eles acreditam que aqui exista um apoio maior à cultura. Porque o circo é uma manifestação de artistas que não são muito organizados ainda, são artistas de rua, estão sempre viajando e trabalhando na rua. A gente procurou o Fumproarte, mas não conseguimos o apoio. Porque talvez não tenham entendido direito, ou talvez nós não soubemos explicar como era o projeto, a gente não tinha um cronograma

 

VAIA – E a idéia de vocês é não ter um cronograma?

Luciano Fernandes - Não, a gente pensa em ter um cronograma mas ele vai se definir aos poucos, porque este encontro é paralelo com o encontro da Argentina, muito tradicional, que já está na sexta edição e é o maior e mais famoso da América Latina. E a Argentina tem tradição de circo há muitos anos. Então a galera do encontro da Argentina vem pro encontro daqui, que é uma semana depois. Por isso, a gente não sabe ainda o cronograma: vamos puxar esta gente de lá e não sabemos ainda quem vai vir. Porque o encontro é feito pelos artistas mesmos. E o encontro tem que acontecer de qualquer jeito. Acreditamos que cedo ou tarde a galera daqui vai reconhecer...

 

VAIA – E como surgiu este movimento de circo?

Luciano Fernandes - Bom, eu vou falar da minha experiência. Há dois anos, esteve aqui o professor de circo Renato Coelho, um cara do RJ que veio morar aqui e eu comecei a aprender malabares com ele. Trabalhei um monte também com a Terreira da Tribo, que é uma referência em POA pra todo o Brasil. E a gente tem muita influência deles, essa coisa de encarnar o personagem, essa coisa visceral. Depois eu conheci o Cisco Vasques que é um puta pesquisador de maquiagem, a história do sangue comestível artificial, o conhecimento de cinema que ele tem, o trabalho com látex, e eu comecei a inserir isso no trabalho. Tem também os caras do teatro de bonecos, que têm uma coisa lúdica que às vezes a galera do teatro não tem tanto. Então, misturando tudo isso, dá um diferencial que aqui no Sul a gente está pesquisando.

 

VAIA – E o público de vocês?

Luciano Fernandes - Estamos conseguindo conquistar um público que se afasta das artes. Essa idade entre quinze e os vinte e cinco anos, que ainda é pouco trabalhada. Agora está começando uma revolução de se fazer arte pra essa geração. Essa galera não vai muito ao teatro, eles não gostam muito de ir. Eles acham o teatro adulto muito chato, muito lento, muito bobo, careta. Coisa infantis não servem pra eles, porque tu sabes como é que é adolescente. O Stercus (Grupo Falus&Stercus) também trabalha com esse público e também tem uma linguagem mais porrada, mais pesada, mais dinâmica, mais forte, acho que é um grupo que tem a ver. Então, a gente está indo atrás dessa gurizada nas festas da noite, de perna-de-pau. Uma coisa que é importante deixar claro é que a gente é muito influenciado pelo surrealismo. Somos conscientes do que fazemos, que estamos começando uma história e que, às vezes, a galera olha, sem entender...Tentam explicar o que é, vem pedir explicação...”o que que é isso”?

 

VAIA – A juventude não está com vontade de discutir política institucional. Vocês tentam pegar mais pela vida cotidiana, dos costumes? Porque o lance de fazer política institucional misturada com arte, as pessoas não estão a fim... Esse discursinho...

Luciano Fernandes ­- É, isso tem que estar imbuído dentro da tua história. Por exemplo: a gente trabalha uma boate (Século XV, em Cachoeirinha) todo o fim-de-semana onde vão de duas a três mil pessoas por noite. Somos responsáveis pela abertura. No natal, fizemos o enforcamento do papai Noel, lá. Porque fizemos o enforcamento dele? Não foi assim, de graça. Primeiro, entrou o papai Noel distribuindo presente, tocando dinheiro pra cima, mostrando essa lado capitalista, a galera na loucura do consumo. Depois, entraram umas figuras muito fortes, muito agressivas, muito rock’n’roll e aí a gente foi lá e enforcou o papai Noel, num dia em que, de repente, estava todo mundo num outro astral. Isso é que é um diferencial, uma manifestação ao mesmo tempo. Não que a gente ache que não se deva confraternizar. Mas não só nessa história de grana, entende?...

 

VAIA – Bom, a gente sabe que vocês ainda estão correndo atrás de mais patrocinadores para o evento...

Luciano Fernandes - Ah! Isso é importante! Se tiver alguém interessado em saber mais detalhes do como vai ser o evento ou de como nos apoiar, pode contatar através do imêiil lucifer@osite.com.br, ou pelo telefone (0xx51) 9123-7519 ou (0xx51) 3249-4923

com Luciano Fernandes.

 

VAIA – Pra encerrar... Tem outro grupo forte de pernas-de-pau, ali na Pe. Cacique. Vocês acham que poderá haver concorrência ou uma integração? Vocês atuarem no time do Inter ou mandar o pessoal de lá trabalhar no movimento de circo? (Risos)

Luciano Fernandes - Olha só. A gente foi fazer um trabalho pra Ipiranga no jogo Grêmio x Corinthians (decisão da Copa do Brasil). Fomos entre oito pernas-de-pau pro jogo e foi muito engraçado porque a galera via a gente e ficava gritando. A gente respondia: “Estávamos sem emprego, não tinha jogo e arrumamos aquele ali, pelo menos”. Circulamos pelo campo com uns placões da Ipiranga, de perna-de-pau. Foi muito legal. E perna-de-pau, em alguns casos, tem tudo a ver com futebol, né? (Risos gremistas)

 

Fim da entrevista

 

Esperamos todos vocês,

 

Atenciosamente,

 

Luciano Fernandes

Coordenador do Evento no Rio Grande do Sul

Imêiil: lucifer@osite.com.br

Telefones:

(0xx51) 9123-7519

(0xx51) 3268-4923

 

REALIZAÇÃO

Este evento está sendo realizado de artistas para artistas com o apoio de vários colaboradores.

 

CO REALIZAÇÃO

SESC Rio Grande do Sul